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Antônio Vicente Felipe Celestino |
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Grandes Nomes da História |
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Quando Antônio Vicente Felipe Celestino veio ao mundo (12/09/1894), a época era particularmente rica em matéria operística, e a canção italiana dominava o mundo. O teatro brasileiro, nessa ocasião, não era exceção à influência do estilo melódico peninsular. Também aqui se cantava a italiana, apreciava-se ópera, ouviam-se os primeiros cilindros gravados de cantores líricos e quem quisesse praticar não podia pensar em outro estilo, só o bel canto. Música popular, de características próprias, no sentido artístico em que a conhecemos hoje, era praticamente inexistente em nosso país, salvo por uma ou outra manifestação isolada. Pois o futuramente célebre Vicente Celestino cresceu nesse tempo: Puccini fazendo sucesso mundial com “Lá Boheme”, Mascagni empolgando ás platéias com a “Cavalleria Rusticana”; Leoncavallo com “Pçaguiacci”; Preponderância das cançonetas de Tosti, Denza e Mário Costa; Francesco Tamagno no ápice de sua carreira; Enrico Caruso começando a se firmar. Em sua casa, situada no Bairro de Santa Teresa, no Rio de Janeiro, respirava-se um clima de canto artístico. O pai, um calabrês de nome Giuseppe Celestino, passava as horas vagas escutando discos dos maiores tenores e barítonos da época. Não se satisfazia com isso, porém: Ouvia-aos cantando. E a esposa lhe fazia companhia no gosto. Logo, como se pode depreender, os filhos também os imitavam, razão pela qual, ao crescerem, quase todos abraçaram a carreira de cantor exceto o João, que optaria por papéis cômicos em teatro. E entre os cinco, Pedro e Vicente (este principalmente) iriam tornar-se famosos. Até os vinte anos, Vicente Celestino exerceu profissões humildes, trabalhando duramente para manter-se e aos seus, sem nunca, entretanto, desistir da odeia de ser cantor. Mas não um simples cantor de revwettes e burletas (coisa que, em verdade, seria obrigado a se tornar mais tarde): queria ser tenor de ópera, cantar no Municipal,e tornar-se tão grande quanto Caruso. Nada disso, porém, mostrava-se fácil, e enquanto a oportunidade máxima não chegava, o jeito era aquele teimoso auto-didata começar no teatro de revista. Em 1914, ele estreava na Companhia do teatro São José, interpretando com muita felicidade a canção Flor do Mal, do guitarrista e compositor português Santos Coelho. O sucesso foi tão grande que, logo a seguir, ele seria convidado pela Casa Édison para gravar essa música em disco. Seria este seu primeiro registro fonomecânico, abrindo um ciclo que, até sua morte, atingiria quase cem. A partir de então, Celestino iria ligar-se a esse tipo de teatro, excursionando por quase todoo país. Em ópera, sua acalentada ambição de juventude, ele só aparecia acidentalmente, em temporadas não oficiais.
Em 1933, já conhecido em todo Brasil por apresentações em rádio (do qual, esclareça-se, foi um dos pioneiros no país), por inúmeros discos gravados (até então, no sistema elétrico, 18 na Odeon e 5 na Columbia) e através de suas performances teatrais e circenses (muitas vezes extensivas e pequenas cidades de interior),Vicente Celestino conheceu, no Teatro Recreio, dório, aquela que se tornaria, a partir de então, sua esposa e eficiente conselheira artística – Gilda de Abreu. Excelente atriz e soprano, Gilda era estreante, tendo sido designada pela direção da companhia para contracenar com ele. O amor surgindo em meio às interpretações, e a 25 de setembro ambos se casavam. Essa união só se desmancharia com a morte de Vicente, em agosto de 1968. Em 1935, após breve temporada lírica no Teatro Santana, em São Paulo (onde Vicente se apresentava ao lado de Gilda, na ópera “Aida”, de Verdi), o artista deixou a Columbia (na qual, ao todo, fizera cinco discos), ligando-se à RCA. Seu primeiro disco nesta marca (da qual, todos sabem, ele nunca mais se separaria) foi realizado em 12 de junho desse ano. Continha dois dos maiores sucessos de toda a sua carreira – Ouvindo-te (composição dele próprio), com Gilda Abreu, na gravação, fazendo o contracanto sem palavras, e Rasguei o teu retrato (tango-canção de Cândido das Neves). Este disco, muito bem produzido, com bonito acompanhamento orquestral dirigido por Pixinguinha, mudou totalmente os pontos de vista do cantor com respeito a gravações. Daí para a frente, segundo o que decidiu com a esposa, faria poucos discos, observando-lhes rigorosamente a qualidade. Fiel a este critério, Vicente Celestino só voltaria a gravar um ano depois, e, por sinal, com um estrondoso triunfo - O ébrio – que marcaria fundamente o restante de sua carreira. Ainda dentro desta cuidadosa dosagem de lançamentos, no começo de 1937 surgiria com outro registro sensacional – Coração Materno. Meses depois, novos discos e outros êxitos: Patativa, Esquecimento e Botão de rosa, sendo este considerado uma de suas mais expressivas atuações gravadas. Durante 1938, Celestino faria outros cinco discos, um deles com a valsa Gilka, de Dante Santoro. Esta gravação, saliente-se, seria aplaudida por crítica e público com uma das mais perfeitas da carreira do cantor; mostrava-o, sem dúvida, no ponto mais perfeito de sua forma interpretativo-vocal, destacando além do mais, magnífico solo de violino por Romeu Chipsman. Em fevereiro de 1939, devido ao desgaste da matriz de três anos antes, Celestino seria levado a regravar O ébrio (e Abismo de amor, a outra face), pois não havia disco que chegasse para atender aos pedidos do público. No mês seguinte, ele faria nova gravação de sucesso, esta com outra composição de Dante Santoro – Ilusão de garoto. E seria só, por esse ano.
A essa altura, o cantor já podia até dar-se ao luxo de parar de gravar, vivendo exclusivamente dos sucessos de anos anteriores. Não renunciara ainda a seus propósitos operísticos e, sempre que o prestígio como cantor popular lhe ensejava, aceitava convites para interpretar um Radamés, um Canio, ou um Turiddu. Mas, não havia dúvida, sua missão era outra que não concorrer com Schipa, Gigli ou Bjoerling. Do mesmo modo que já ocorrera com José Mojica, o imenso prestígio de que desfrutava se devia à canção popular. Onde quer que Celestino se apresentasse, com seus tangos, valsas e canções, milhares acorriam como um transe. Começa 1940 e o artista sai com novo triunfo, através de Quero voltar e Serenata. Em maio, outro sucesso – Matei, cujo impacto sobre o público pouca coisa diferiu do provocado anteriormente por O ébrio e Coração materno. Em 1941, novo êxito: Sangue e areia. Mas, a partir desse ano, Celestino ficaria restrito a seu repertório antigo. Era tempo de guerra mundial e o sucesso só retornaria com o término do conflito (1945), através de Mia Gioconda (gravação de outubro). No ano seguinte, mais duas canções consagradoras: Altar de lama e Porta aberta. Em 1946, a propósito, o cantor filmaria sobre o tema da canção O ébrio, conquistando com esta realização um público com o qual talvez nunca sonhara. Os cinemas ficaram lotados, no país inteiro, e milhões lágrimas assistindo à tragédia exibida nas telas. Celestino, agora também como ator, conquistava de vez o coração de todos os brasileiros, especialmente daqueles das camadas mais humildes, que o idolatravam como a nenhum outro cantor vivo na ocasião.
A verdade, porém, é que o artista já não era mais o jovem de voz possante e enternecedora de outros tempos. A partir de 1950, com 56 anos de idade, começou a declinar tecnicamente, e em1951 faria novo filme – Coração materno – explorando o mesmo filão que lhe havia proporcionado tantos lucros em 46, ou seja, da canção famosa vertida para a tela. A partir daí ele seria mantido pelos velhos sucessos, regravando-os todos em LP. Sempre cercado pelo carinho dos admiradores, ainda faria muitas gravações, atingindo – ele que começara nos discos mecânicos a fase do estereofônico. Uma coisa não se alteraria, até seu falecimento: o fantástico prestígio de que desfrutava em todo o Brasil, a ponto de fazê-lo merecedor de uma quantidade enorme de títulos e prêmios, como nenhum outro em sua categoria havia alcançado até então. E ao morrer, em 1968, tinha a lamentá-lo o país inteiro, inclusive as novas gerações perplexas ante a força de seu nome.
Texto extraído da capa do LP “Vicente Celestino” Autor do Texto: J.L.Ferrete. |
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Vicente Celestino
Nasceu num tempo que era preciso ter volume vocal para cantar, pois ainda não existia o microfone e todas as facilidades que este iria proporcionar aos de voz menos favorecida. Mais ainda: só se cantava em teatro (quando não era o caso de música de câmara, apropriada para recintos menores) e, fora disso, em circos, o que afinal dava no mesmo. A potência vocal precisava superar a distância entre ouvinte e intérprete, de forma que aquele pudesse entender perfeitamente as palavras. Fazia-se tudo aos brados, é verdade, mas com equilibrada expressão artística. |
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