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Literatura de Cordel |
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Amazan |
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Tranca Rua |
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Eu ainda era menino a primeira vez que vi o caboclão lazarino que nunca mais esqueci, chama-se tranca-rua pois quando a vontade sua era fechar a cidade, dava ordem pra trancar, mercado, bodega, bar, até a casa do padre.
Quatro, cinco ou seis soldados para ele era perdido, uns saiam arrebentados, outros ficavam estendidos, de forma que a cidade não tinha tranqüilidade no dia que ele bebia, pois quando se embriagava, dava a gota, bagunçava e prendê-lo ninguém podia.
Tranca-rua era um caboclo com dois metros de altura os braços era aqueles tocos, as pernas dessa grossura, não tinha medo de nada, pois até onça pintada, ele sozinho caçava, pegava a bicha de mão, depois com o cinturão, dava uma pisa e matava.
E, sei que criei-me escutando falar do cabra voraz, o tempo foi se passando e eu tornei-me rapaz, mole que só a molesta, até pra ir numa festa eu era desconfiado, se acaso eu visse uma briga, tinha logo uma fadiga, ficava toso mijado.
Hoje, quem olha pra mim pensa até que eu tô inchado, pois eu nunca fui assim naquele tempo passado, eu era uma cabra mofino deses do pescoço fino da cabeça chata e feia, na região que eu morava o povo só me chamava de "caboré de oreia"
Por arte dos mangagá um dia eu me alistei, num concurso militar, pois não é que eu passei! Tornei-me, então, um, soldado, magro, feio e enfadado, nem com o revolver podia, porém se o chefe mandasse prender alguém que errasse eu dava a gota, mas, ia.
Uma certa madrugada eu estava bem deitado, quando chegou Zé buchada com os "zói" arregalado, foi logo chamando a gente depois deu parte ao tenente relatou o desmantê-lo, tranca-rua, ontem brigou portanto agora o senhor vai ter de mandar prendê-lo.
O tenente olhou pra mim eu chega tive um abalo disse, amanhã bem "cedim" você vá lá intimá-lo, disse isso e foi deitar eu peguei logo a ficar amarelo e meio cansado, me deu uma tremedeira eu disse; é a derradeira viagem desse soldado!
E de manhã logo cedo botei o pé no camim saí tremendo de medo e conversando sozim aqui, acolá parava, fazia uns gestos, ensaiava, o que diria pra ele, e saí me maldizendo nove horas, mais ou menos eu cheguei na casa dele.
Fui chegando com cuidado a porta tava fechada espiei assim pro lado vi ele numa latada, tava de um bode tratando eu fui me aproxegando pra perto do fariseu, minha garganta tremia, eu disse assim; bom dia, ele nem me respondeu.
Eu fui peguei conversando fui me aproxegando mais, e ele lá trabalhado sem me dá nenhum cartaz, eu disse; bonito dia, mas, seu antôi quem diria que esse ano ia chover, eita que bodão criado, é pra vender no mercado ou mode o senhor comer?
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Ele foi, olhou pra mim eu comecei a sorrir aí ele disse mesmo assim: Que diabo tu quer aqui? eu fui disse: não senhor é que eu sô um caçador moro lá no pé da serra, me perdi de madrugada não achei mais a estrada vim sair nas suas terras.
Ele então me interrogou; então cadê seu "bisaco" eu disse, não sinhô, há, sim, caiu num buraco, aí ele disse, senta aí que vou terminar aqui pro mode depois cozinhar, e você chegou agora portanto só vai embora depois que almoçar.
Quando nós tava almoçando ele pegou conversar me disse: faz vinte anos que eu moro nesse lugar! Sem mulher e sem parente as vez bebo aguardente faço papel de bandido, eu sei que é covardia mas quando é no outro dia fico muito arrependido!
Ontem mesmo, sem querer eu fiz umas presepadas pois comecei a beber cana com "lambú" assada, depois perdi os sentido fiz o maior destampido na fazenda de João Conha, hoje me sinto com culpa não vou lá pedir desculpa por que estou com vergonha.
Aí eu disse: é agora que eu faço a minha defesa peguei a fera na hora do momento de fraqueza e, disse assim: realmente, o senhor é diferente quando ta embriagado, mais deixa isso pra lá que a vida vive a passar e o que passou ta passado.
Viu, seu "Antôi" te mais uma, eu nunca fui caçadô, também estou com vergonha de ter mentido ao sinhô, eu sou um pobre soldado que as ordens do delegado meu dever é despachar, porém prefiro morrer do que dizer a você que vim aqui lhe intimar. Se o delegado acha ruim pode tirar minha farda, mais, intimar seu "Toin" Deus me livre, intimo nada!
Nisso Antôi levantou bebeu água, se sentou depois pegou perguntar, quer dizer que o soldado por ordem do delegado veio aqui me intimar? eu fui falar mas, não deu comecei a gaguejar, nisso, Antôi olhou pra eu e disse: pode se acalmar, resolvi ir com você pra conversar e saber o que quer o delegado, pois se eu não for, camarada, vão tirar sua farda e eu vou me sentir culpado.
E vamos logo simbora enquanto eu to com vontade, mais ou menos quatro horas fumo entrando na cidade, de longe eu vi o tenente assentado num batente com uns cabra a conversar, mais quando viu nós gritou: valei-me nosso sinhô espí quem vem aculá, eu só tô acreditando pro que meus zoi estão vendo tranca-rua vem chegando Caboré vem lhe trazendo, o cabra é macho demais. Nisso eu fui passei pra traz mode chamar atenção e para me amostrar inventei de empurrar tranca-rua com a mão.
Esse nêgo, camarada, ficou meio enfurecido deu-me uma chapuletada por riba do pé do ouvido, que eu sai como um pião rodando sem direção por riba de pedra e pau, graças a virgem Maria acordei no outro dia na cama de um hospital.
Não sei o que se passou depois que eu desmaie porque ninguém me contou eu também não perguntei, só sei que o delegado até hoje é aleijado e que esse ouvido meu, nunca mais escutou nada por causa da bordoada que tranca-rua me deu.
Amazan. |
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